terça-feira, 5 de junho de 2012


FILAS DE BANCOS, O PROCON E O MARAUÊ

Por Altevir José Esteves (*)

Na semana passada aconteceu de novo. O    PROCON de Teresina foi à luta contra as filas dos bancos. Percorreu agências, entrevistou clientes, gravou entrevista para TV e blogs, fez e aconteceu. Resultado? Eu diria nenhum em proveito do consumidor, razão maior de sua existência.

Tem sido assim. No máximo, aplicam multas com base na lei municipal, da qual a instituição financeira ré pode recorrer, justificar e poucas vezes têm que desembolsar valores de seu cofre. Isto porque além das faculdades que a lei municipal abre para as exceções, a instituição financeira usa e abusa dos recursos jurídicos, esquivando-se do ônus. Cassar alvará de funcionamento de uma agência bancária? Não se conhece um caso sequer.

Há poucos dias uma peça teatral humorística foi barrada no Teatro da Assembléia porque um dos atores escreveu uma piada no facebook (um pouco sem gosto), ironizando a cidade de Teresina, comparando-a, de maneira chula, com uma parte do corpo humano. O deputado Fábio Novo zangou-se, deu entrevistas, bradou e trocou farpas com um colunista da Veja on-line, braço digital da revista VEJA.

Bobagens. Ninguém ganhou nada com isso. Perdemos um espetáculo com atores “globais” e mais uma vez nossa cidade ganhou páginas da mídia por uma causa não motivadora. “O povo precisa ter mais senso de humor”, disse o veterano humorista Juca Chaves, prolator primeiro da frase desdita. 

Filas de banco costumam ser de clima tenso. As pessoas que ali estão sempre têm um motivo para stress. Uns estão no sufoco financeiro e precisam de empréstimos; outros têm dinheiro e brigam por uma taxa melhor; a maioria tem o que fazer e já perdeu tempo demais no trânsito e no trabalho; os bancários estão sufocados por metas e cobranças de toda a sorte; o gerente quase nada pode fazer, porque também é vítima dos patrões/banqueiros, que querem lucros exorbitantes e por isso reduzem o quadro de funcionários ao mínimo dos mínimos; os funcionários estressados adoecem e faltam; a fila aumenta. O PROCON aplica multas; de novo o consumidor só perde, e briga, grita, dá escândalos nas agências. E não ganha nada.

 O Teresinense precisa procurar as vias corretas de resolver seus problemas. Nos dias de hoje, ficar uma hora ou mais numa fila, seja do que for, é perda de tempo, é constrangimento, é ser feito de bobo. Isto é dano moral e material. E quem passa por isso deve ser indenizado. Hoje, com os recursos tecnológicos de que se dispõe, não tem cabimento as empresas demorarem tanto tempo para atender seus clientes, “razão maior de suas existências”, como apregoa a maioria delas.

Os bancos se defendem dizendo que o cliente tem outras opções de atendimento, como saques automáticos, internet, call center etc. Não é assim que funciona. Para utilizar tais recursos são necessárias maiores explicações ao cliente/usuários, mais gastos. Isto envolve mais funcionários, mais tempo. Não, os bancos não querem mais despesas.  Eles têm metas financeiras, estatísticas, obrigações com a bolsa de valores etc. 

O ser humano e as empresas de modo geral tendem a dar prioridade a quem estiver mais incomodando. Quem não reclama, não ganha. Exemplo disso é uma grande instituição financeira de capital nacional, que há quatro anos trabalha um projeto para melhorar o atendimento de suas agências no país. Pois bem, o Piauí é o único estado onde o tal projeto não foi implantado. Por outro lado, em várias unidades da federação, como São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Ceará e o Distrito Federal, os juízes muito já têm decidido a favor do consumidor lesado em filas bancárias. Em processos dessa natureza, sentenciam aplicando indenizações contra instituições financeiras. Estamos atrasados. Muita coincidência, não?

Não adianta espernear, chorar, dar ataques nervosos. Os bancos não têm coração, têm é cofres! Ataquemos então a sua parte mais sensível. Teresina tem lei municipal que disciplina o tempo de atendimento nas filas bancárias. Vamos utilizá-la a favor do consumidor, razão maior da promulgação da referida normal legal.

O piauiense de modo geral precisa mostrar de fato o seu valor, e no foro adequado. Ao humorista, se responde com humor; ao deputado oportunista, se responde com a negativa do voto no próximo pleito; ao banco insensível, com ações reparadoras.

Ao ficar mais tempo do que o permitido na lei municipal, procure um advogado e vá à justiça. Exija danos morais e materiais. Só assim a lei serve para alguma coisa e o consumidor ganha esse jogo em algum momento.  O cofre do banco não há de derramar uma gota de lágrima. 

Exigindo nossos direitos, ajudamos a construir a democracia, proporcionando auto-estima na população, melhorando a cidade. Talvez assim o teresinense possa divulgar, com orgulho, o seu novo slogan: “SE O MUNDO TEM UM CÉU, O CÉU DO MUNDO É AQUI”, (divulgado pela SA Propaganda, empresa pauiense).


( * ) Altevir José Esteves é advogado do escritório Altevir Esteves Advocacia e Consultoria, gerente aposentado do Banco do Brasil, professor, escritor, membro das Academias de Letras de Parnaíba e de Alto-Longá-PI.
E-mail causanobreadv@hotmail.com

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